A astronomia tem de facto o condão de nos colocar reflexivos. Quero dizer, quando nos apercebemos da insignificância da Humanidade perante a infinitude do Universo é como se todos os problemas que nos entopem os dias e a existência parecessem minudências. Um bando de formigas ao pé do colosso de Rodes. Existe tanto para lá do nosso pequeno e pálido planeta! Carl Sagan observou que “vista do espaço, a Terra é apenas um ponto azul, um pixel solitário. Não há nenhum sinal de humanos, nem das nossas modificações da superfície da Terra, nem das nossas máquinas. Deste ponto de vista, as nossas obsessões com nacionalismo não parecem ter qualquer importância. Nós somos muito pequenos”.
As grandezas do Universo são de tal forma avassaladoras que os nossos cérebros simplesmente não as conseguem processar. A luz viaja a 300 000 quilómetros por segundo. Há mais galáxias no Universo que todos os grãos de areia que existem em todas praias da Terra. O Sol transforma 600 milhões de toneladas de hidrogénio em hélio por segundo. Se conseguíssemos visitar uma estrela por segundo demoraríamos 3000 anos a visitar todas as estrelas da Via Láctea. Nós somos muito pequenos.
No início, deus criou quasars, estrelas de neutrões, hipernovas, galáxias, asteróides, constelações e buracos negros massivos. Depois criou a Terra, um planetazeco aquecido por uma estrela de segunda, numa galáxia banal. Depois engravidou uma fêmea duma espécie de primatas sofisticados que por lá tinham aparecido. Teve com ela um filho - que era ele próprio - que morreu aos trinta e poucos anos e ressuscitou três dias depois. A mensagem de compaixão e caridade, combinada com multiplicações de pães e peixes, convenceu muita gente. Esses seguidores construíram catedrais de pedra e acenderam fogueiras, converteram e queimaram e hoje felizmente temo-los cá para nos dizerem como é que deus espera que nos comportemos. Com quem e quantas vezes podemos ter relações sexuais, com quem podemos casar e quantos preservativos podemos usar contam-se entre as principais preocupações actuais do criador de triliões de estrelas.
Talvez as formigas, com as antenas tacteando sempre o chão, acreditem que a colónia é o centro do cosmos. E talvez acreditem que existe um altíssimo que se preocupa com os problemas delas. Mas os humanos não se detêm e não deixam de esmagar, não se apercebem sequer quando uma formiga jaz esmagada sob os seus sapatos. Se o deus omnipotente existisse, se o criador de quasars, de estrelas de neutrões, de hipernovas, de galáxias, de asteróides, de constelações, de buracos negros massivos existisse, ele não quereria saber das preferências sexuais dos mamíferos para nada. Ele nem sequer se aperceberia ou se importaria com a nossa existência. Eu não perco o sono com a promiscuidade sexual das formigas. Que pretensão a nossa achar que um ser omnipotente e mais complexo que o próprio Universo – teria de o ser se foi o seu criador – se preocuparia com aquilo que os macacos simplórios do ínfimo pixel azul fazem ou deixam de fazer!
Esta crença num deus pessoal ao nosso dispor que tanto cria as avassaladoramente complexas leis matemáticas que regulam o Cosmos como se preocupa com o facto de eu comer carne ou não na Quaresma, é uma reminiscência de uma concepção geocêntrica do Universo e é fruto da nossa miopia e falsa sensação de importância. As aspirações do estudante que reza antes de cada exame, como se o sortilégio compensasse a falta de estudo, ou mesmo a gratidão do homem que se ajoelha em Fátima porque se curou de um cancro, como se a penitência servisse de pagamento a um serviço, são uma irrelevância no Cosmos infinito. O criador de um trilião de sóis tem mais que fazer.
Tendemos a sobrevalorizar a importância dos nossos problemas e persistimos na crença de um deus ao nosso dispor que se preocupa connosco. Mas afinal, o deus que nos ama tanto e que tanto reprova a masturbação e o uso de preservativos preparou-nos um destino macabro: a Terra será engolida pelo Sol moribundo. O Universo não sentirá a nossa falta. Se deus existisse nem pestanejaria.
Somos fruto de uma natureza terrivelmente indiferente.
Para acabar deixo-vos com mais uma citação do extraordinário Carl Sagan:
"Vivemos num pedaço obscuro de rocha e metal circulando um sol enfadonho, que fica na periferia de uma galáxia perfeitamente ordinária composta por 400 biliões de outros sóis, a qual, por sua vez, é uma de entre os cerca de cem biliões de galáxias que constituem o universo, o qual, assim o sugerem as concepções mais recentes, é apenas um de um número colossal – talvez de um número infinito – de outros universos fechados. A partir desta perspectiva, a ideia de que estamos no centro, de que temos alguma importância cósmica, é absurda".

