domingo, 16 de maio de 2010

Atenas


Há três semanas atrás estive na capital da falida Grécia, Atenas. Eis a impressão com que fiquei.

A cidade de Sócrates, Péricles e Platão é suja e desorganizada. As paredes estão cobertas de grafitti, as ruas estão pejadas de cães vadios. A cidade está sufocada em poeira e poluição. O trânsito é caótico. Do monte Licabeto contemplamos uma megalópole branca, puída e andrajosa, um emaranhado de casinhas alvas que se estendem atabalhoadamente até ao infinito do horizonte. Engolidos pelo desmazelo da urbe moderna encontramos, estoicamente de pé, os monumentos e as ruínas da antiga Atenas, a cidade de Teseu e de Adriano: uma ode à civilização ocidental. A Acrópole é sublime e inesquecível, tal como os museus.

Os gregos têm idiossincrasias muito curiosas. Têm uma lei anti-tabaco semelhante à lei portuguesa, mas fumam despudoradamente nos autocarros, nas estações de metro e nos restaurantes. Filas não são respeitadas. Os automobilistas em geral vêem o cumprimento do código da estrada como uma maçada e, sempre que lhes dá jeito, ignoram imperturbavelmente as leis de trânsito, mas não o fazem de modo subtil ou envergonhado. São enfáticos e conspícuos. Fazem-no sem qualquer problema. Em Atenas um sinal vermelho não significa necessariamente paragem nem um sentido proibido necessariamente proibição – um taxista que me levava até ao hotel decidiu, com toda a naturalidade do mundo, passar metade de uma rotunda em contra-mão, simplesmente porque era mais rápido. Os lojistas regateiam os preços e não deixam de falar ao telefone para atender os clientes. Comprar uma estatueta da deusa Atena em Monastiraki pode tornar-se num pequeno leilão onde o preço marcado não interessa para nada. Os funcionários tratam os utentes como um estorvo. Os turistas são expulsos da Acrópole às 14.15, 45 minutos antes da hora marcada, porque as funcionárias querem sair mais cedo. No geral os gregos cultivam o uso de expedientes, o recurso ostensivo da solução mais imediata, rápida e fácil.