segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Nadine Gordimer

“Os adultos começam a fazer previsões desde o tempo em que as crianças são muito pequenas. Que queres ser quando fores grande? Que pensas fazer quando acabares os estudos? Qual é a profissão que vais escolher? Estas antecipações não dão resposta a nada do que a vida torna necessário conhecer. E Sasha sabia que eram, afinal, mentira essas perguntas, essas fórmulas emitidas distraidamente por homens e mulheres adultos preocupados com questões financeiras, especulações imobiliárias, divórcios, manobras políticas. Sabia-o desde o começo: - Eles sabem que tu nunca serás maquinista… pelo menos na medida em que isso depender deles. Desprezam os maquinistas. Sabem que não é isso que tu queres ser; já decidiram por ti o que virás a ser, e depois dirão que fizeram tudo o que podiam por ti.”


Nadine Gordimer, Um capricho da natureza

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Peripécias da História (I)


Flávio Honório Augusto (conhecido como Honório) foi imperador do Império Romano do Ocidente entre 395 e 423. A sua latente fraqueza de carácter e a situação de decadência generalizada do Império somaram-se para fazer do reinado de Honório um dos piores da história (o que não é dizer pouco!). Entre outras coisas, Honório era conhecido por manter uma colecção de galinhas de estimação. A sua preferida, por sinal, chamava-se “Roma”.

Em 410, o rei visigodo Alarico invadiu e saqueou a cidade eterna. Foi o primeiro a fazê-lo em quase 800 anos. A mãe do mundo havia sido assassinada, disseram. Alheado da catástrofe, Honório encontrava-se confortavelmente instalado na cidade de Ravena. Um soldado foi incumbido de dar as terríveis notícias ao imperador. Aproximou-se e disse-lhe gravemente: “Roma tombou!”. O imperador ficou estupefacto. Fixou o rosto do soldado ostentando um ar simultaneamente confuso e lívido, até que murmurou: “mas como é possível se eu acabei de a alimentar!?”.

sábado, 2 de outubro de 2010

Bertrand Russell

"That Man is the product of causes that had no prevision of the end they were achieving; that his origin, his growth, his hopes and fears, his loves and his beliefs, are but the outcome of accidental collocations of atoms; that no fire, no heroism, no intensity of thought and feeling, can preserve individual life beyond the grave; that all the labors of the ages, all the devotion, all the inspiration, all the noonday brightness of human genius, are destined to extinction in the vast death of the solar system, and that the whole temple of Man's achievement must inevitably be buried beneath the debris of a universe in ruins — all these things, if not quite beyond dispute, are yet so nearly certain that no philosophy which rejects them can hope to stand. Only within the scaffolding of these truths, only on the firm foundation of unyielding despair, can the soul's habitation henceforth be safely built."

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sereno

Thomas C. Eakins: The Writing Master, 1882

Serenidade. Este quadro de Thomas Eakins evoca serenidade. Das linhas austeras do ancião exalam calma, concentração e paciência. De alguma forma sabemos que o velho escritor é um tipo tranquilo. Escreve devagar. A caneta é segurada com precisão. Os olhos estão totalmente comprometidos com a folha de papel, de tal modo que parecem estar fechados. Estão fechados para o mundo exterior. O exterior não interessa, é um fundo negro, disforme. A mão esquerda está placidamente pousada. As rugas, o cabelo branco ligeiramente desgrenhado, os óculos, o ar de respeitabilidade atestam a erudição e sapiência do velhote. Tranquilamente, lentamente, vai completando o seu trabalho, sem prestar nenhuma atenção à plateia.

domingo, 16 de maio de 2010

Atenas


Há três semanas atrás estive na capital da falida Grécia, Atenas. Eis a impressão com que fiquei.

A cidade de Sócrates, Péricles e Platão é suja e desorganizada. As paredes estão cobertas de grafitti, as ruas estão pejadas de cães vadios. A cidade está sufocada em poeira e poluição. O trânsito é caótico. Do monte Licabeto contemplamos uma megalópole branca, puída e andrajosa, um emaranhado de casinhas alvas que se estendem atabalhoadamente até ao infinito do horizonte. Engolidos pelo desmazelo da urbe moderna encontramos, estoicamente de pé, os monumentos e as ruínas da antiga Atenas, a cidade de Teseu e de Adriano: uma ode à civilização ocidental. A Acrópole é sublime e inesquecível, tal como os museus.

Os gregos têm idiossincrasias muito curiosas. Têm uma lei anti-tabaco semelhante à lei portuguesa, mas fumam despudoradamente nos autocarros, nas estações de metro e nos restaurantes. Filas não são respeitadas. Os automobilistas em geral vêem o cumprimento do código da estrada como uma maçada e, sempre que lhes dá jeito, ignoram imperturbavelmente as leis de trânsito, mas não o fazem de modo subtil ou envergonhado. São enfáticos e conspícuos. Fazem-no sem qualquer problema. Em Atenas um sinal vermelho não significa necessariamente paragem nem um sentido proibido necessariamente proibição – um taxista que me levava até ao hotel decidiu, com toda a naturalidade do mundo, passar metade de uma rotunda em contra-mão, simplesmente porque era mais rápido. Os lojistas regateiam os preços e não deixam de falar ao telefone para atender os clientes. Comprar uma estatueta da deusa Atena em Monastiraki pode tornar-se num pequeno leilão onde o preço marcado não interessa para nada. Os funcionários tratam os utentes como um estorvo. Os turistas são expulsos da Acrópole às 14.15, 45 minutos antes da hora marcada, porque as funcionárias querem sair mais cedo. No geral os gregos cultivam o uso de expedientes, o recurso ostensivo da solução mais imediata, rápida e fácil.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O Primeiro Homem de Roma

Estou a ler o primeiro livro da excelente saga Masters of Rome da australiana Colleen McCullough, de longe a minha colecção de romances históricos preferida.
A acção passa-se na Roma antiga, no período final da República (século I a.C.). Roma expulsou os reis no século VI a.C. e estabeleceu a República, um regime com dois pináculos de poder: o Senado e o Povo – Senatus Populusque Romanus (SPQR). Numa República sem amos, reis ou déspotas, um cidadão pode apenas aspirar a ser o primeiro entre os seus iguais. Tal era a natureza paradoxal da República: um regime que estimulava uma competição feroz entre os cidadãos, uma busca incessante por poder e influência política, mas que esperava que nenhum deles se destacasse de tal modo que eclipsasse todos os outros, sob o perigo de autocracia. Os livros seguem as vidas daqueles homens que através de astúcia, génio militar ou maquinações políticas reuniram influência suficiente para se intitularem “o Primeiro Homem de Roma”: não reis ou ditadores, mas os primeiros entre os pares. Caio Mário, Sila, Pompeu Magno, César e Octaviano são os protagonistas desta saga genial.
Apesar de se tratar de romances históricos, a obra é fruto de uma exaustiva e minuciosa pesquisa de 13 anos. No final de cada livro, Colleen McCullough brinda-nos com um extenso glossário com termos em latim e com definições e factos sobre a Roma Antiga, a Antiguidade, o sistema político e a sociedade romana da época.
A série ostenta uma tese: a ideia de que a República não foi derrubada, mas que se suicidou devido à intransigência e obtusidade das facções ultraconservadoras do Senado – os boni ou optimates – que queriam continuar a governar a cidade-império de acordo com as tradições e as instituições antigas, como se Roma fosse ainda uma pequena cidade-estado do Lácio, o pequeno “chiqueiro de Rómulo” na formulação de Cícero. Por exemplo, a recusa constante e obstinada do Senado em conceder terras aos soldados reformados levou a que estes passassem a depender cada vez mais do respectivo comandante para obterem a merecida compensação pelos anos de serviço militar nas legiões. Resultado: as legiões passaram gradualmente a desviar a sua lealdade do Governo da República para a figura do General, o garante da terra, com as consequências que se conhecem: o derrube da República por um general brilhante que comandava a lealdade cega do seu exército.

Como exemplo desta intransigência cega, transcrevo um excerto deste primeiro livro, uma magnífica diatribe do conservador Lúcio Cecílio Metelo Dalmático Pontifex Maximus – um nome extraordinário – contra a proposta do demagogo Saturnino que pugnava pela distribuição de terras pelos soldados veteranos da campanha do Norte de África contra o rei da Numídia, Jugurta:

“Lúcio Cecílio tomou a palavra e a sua fúria, bem disfarçada até então, rebentou subitamente.
- Roma é exclusiva! - berrou tão alto que alguns dos seus ouvintes se sobressaltaram - Como pode algum romano honrado pela participação nesta Assembleia propor um programa destinado a transformar o resto do mundo em imitações dos romanos?
A habitual pose distante e superior de Dalmático desaparecera; estava inchado, ruborizado, as veias abaixo das bochechas rosadas e rechonchudas tinham o mesmo tom. E todo ele tremia, vibrava quase tão rapidamente como as asas de uma traça, de tão furioso que estava. Fascinados, receosos, todos os homens da assembleia se inclinavam para ouvir um Dalmático Pontifex Maximus com cuja existência nunca haviam sonhado.
- Pais conscritos, todos conhecemos este romano, não é verdade? - bramiu. - Lúcio Apuleio Saturnino é um ladrão, um especulador, uma vulgaridade efeminada, um conspurcador de rapazinhos que nutre desejos repugnantes pela irmã e pela filha, um fantoche manipulado pelo marionetista do Arpino, uma barata dos piores antros de Roma, um proxeneta, um maricas, um pornógrafo, a criatura no extremo de cada pénis da cidade! O que sabe ele de Roma, o que sabe o seu bonecreiro do Arpino acerca de Roma? Roma é exclusiva! Roma não pode ser lançada ao mundo como a merda ou o cuspo que se lançam nos esgotos! Iremos suportar a diluição da nossa raça através de uniões híbridas com as mulheres esfarrapadas de cinquenta povos? E no futuro, viajaremos até lugares distantes de Roma para ouvirmos o ultraje de um calão latino abastardado? Eles que falem grego! Que adorem Serápis do escroto ou Astarte do ânus! O que nos interessa? Mas vamos dar-lhes Quirino? Quem são os Quirites, os filhos de Quirino? Somos nós! Pois quem é Quirino? Só um romano o sabe! Quirino é o espírito da cidadania romana; Quirino é o deus da assembleia de homens romanos; Quirino é o deus invicto, porque Roma nunca foi conquistada, e nunca será conquistada, caros Quirites!
A assembleia rompeu em aplausos; enquanto Dalmático Pontifex Maximus cambaleava até ao seu banco, quase se abatendo sobre ele, os homens choravam, batiam os pés, batiam palmas até as mãos lhes doerem, viravam-se uns para os outros e abraçavam-se, de lágrimas a escorrerem-lhes pelo rosto.”