Estou a ler o primeiro livro da excelente saga Masters of Rome da australiana Colleen McCullough, de longe a minha colecção de romances históricos preferida.
A acção passa-se na Roma antiga, no período final da República (século I a.C.). Roma expulsou os reis no século VI a.C. e estabeleceu a República, um regime com dois pináculos de poder: o Senado e o Povo – Senatus Populusque Romanus (SPQR). Numa República sem amos, reis ou déspotas, um cidadão pode apenas aspirar a ser o primeiro entre os seus iguais. Tal era a natureza paradoxal da República: um regime que estimulava uma competição feroz entre os cidadãos, uma busca incessante por poder e influência política, mas que esperava que nenhum deles se destacasse de tal modo que eclipsasse todos os outros, sob o perigo de autocracia. Os livros seguem as vidas daqueles homens que através de astúcia, génio militar ou maquinações políticas reuniram influência suficiente para se intitularem “o Primeiro Homem de Roma”: não reis ou ditadores, mas os primeiros entre os pares. Caio Mário, Sila, Pompeu Magno, César e Octaviano são os protagonistas desta saga genial.
Apesar de se tratar de romances históricos, a obra é fruto de uma exaustiva e minuciosa pesquisa de 13 anos. No final de cada livro, Colleen McCullough brinda-nos com um extenso glossário com termos em latim e com definições e factos sobre a Roma Antiga, a Antiguidade, o sistema político e a sociedade romana da época.
A série ostenta uma tese: a ideia de que a República não foi derrubada, mas que se suicidou devido à intransigência e obtusidade das facções ultraconservadoras do Senado – os boni ou optimates – que queriam continuar a governar a cidade-império de acordo com as tradições e as instituições antigas, como se Roma fosse ainda uma pequena cidade-estado do Lácio, o pequeno “chiqueiro de Rómulo” na formulação de Cícero. Por exemplo, a recusa constante e obstinada do Senado em conceder terras aos soldados reformados levou a que estes passassem a depender cada vez mais do respectivo comandante para obterem a merecida compensação pelos anos de serviço militar nas legiões. Resultado: as legiões passaram gradualmente a desviar a sua lealdade do Governo da República para a figura do General, o garante da terra, com as consequências que se conhecem: o derrube da República por um general brilhante que comandava a lealdade cega do seu exército.
Como exemplo desta intransigência cega, transcrevo um excerto deste primeiro livro, uma magnífica diatribe do conservador Lúcio Cecílio Metelo Dalmático Pontifex Maximus – um nome extraordinário – contra a proposta do demagogo Saturnino que pugnava pela distribuição de terras pelos soldados veteranos da campanha do Norte de África contra o rei da Numídia, Jugurta:
“Lúcio Cecílio tomou a palavra e a sua fúria, bem disfarçada até então, rebentou subitamente.
- Roma é exclusiva! - berrou tão alto que alguns dos seus ouvintes se sobressaltaram - Como pode algum romano honrado pela participação nesta Assembleia propor um programa destinado a transformar o resto do mundo em imitações dos romanos?
A habitual pose distante e superior de Dalmático desaparecera; estava inchado, ruborizado, as veias abaixo das bochechas rosadas e rechonchudas tinham o mesmo tom. E todo ele tremia, vibrava quase tão rapidamente como as asas de uma traça, de tão furioso que estava. Fascinados, receosos, todos os homens da assembleia se inclinavam para ouvir um Dalmático Pontifex Maximus com cuja existência nunca haviam sonhado.
- Pais conscritos, todos conhecemos este romano, não é verdade? - bramiu. - Lúcio Apuleio Saturnino é um ladrão, um especulador, uma vulgaridade efeminada, um conspurcador de rapazinhos que nutre desejos repugnantes pela irmã e pela filha, um fantoche manipulado pelo marionetista do Arpino, uma barata dos piores antros de Roma, um proxeneta, um maricas, um pornógrafo, a criatura no extremo de cada pénis da cidade! O que sabe ele de Roma, o que sabe o seu bonecreiro do Arpino acerca de Roma? Roma é exclusiva! Roma não pode ser lançada ao mundo como a merda ou o cuspo que se lançam nos esgotos! Iremos suportar a diluição da nossa raça através de uniões híbridas com as mulheres esfarrapadas de cinquenta povos? E no futuro, viajaremos até lugares distantes de Roma para ouvirmos o ultraje de um calão latino abastardado? Eles que falem grego! Que adorem Serápis do escroto ou Astarte do ânus! O que nos interessa? Mas vamos dar-lhes Quirino? Quem são os Quirites, os filhos de Quirino? Somos nós! Pois quem é Quirino? Só um romano o sabe! Quirino é o espírito da cidadania romana; Quirino é o deus da assembleia de homens romanos; Quirino é o deus invicto, porque Roma nunca foi conquistada, e nunca será conquistada, caros Quirites!
A assembleia rompeu em aplausos; enquanto Dalmático Pontifex Maximus cambaleava até ao seu banco, quase se abatendo sobre ele, os homens choravam, batiam os pés, batiam palmas até as mãos lhes doerem, viravam-se uns para os outros e abraçavam-se, de lágrimas a escorrerem-lhes pelo rosto.”
A acção passa-se na Roma antiga, no período final da República (século I a.C.). Roma expulsou os reis no século VI a.C. e estabeleceu a República, um regime com dois pináculos de poder: o Senado e o Povo – Senatus Populusque Romanus (SPQR). Numa República sem amos, reis ou déspotas, um cidadão pode apenas aspirar a ser o primeiro entre os seus iguais. Tal era a natureza paradoxal da República: um regime que estimulava uma competição feroz entre os cidadãos, uma busca incessante por poder e influência política, mas que esperava que nenhum deles se destacasse de tal modo que eclipsasse todos os outros, sob o perigo de autocracia. Os livros seguem as vidas daqueles homens que através de astúcia, génio militar ou maquinações políticas reuniram influência suficiente para se intitularem “o Primeiro Homem de Roma”: não reis ou ditadores, mas os primeiros entre os pares. Caio Mário, Sila, Pompeu Magno, César e Octaviano são os protagonistas desta saga genial.
Apesar de se tratar de romances históricos, a obra é fruto de uma exaustiva e minuciosa pesquisa de 13 anos. No final de cada livro, Colleen McCullough brinda-nos com um extenso glossário com termos em latim e com definições e factos sobre a Roma Antiga, a Antiguidade, o sistema político e a sociedade romana da época.
A série ostenta uma tese: a ideia de que a República não foi derrubada, mas que se suicidou devido à intransigência e obtusidade das facções ultraconservadoras do Senado – os boni ou optimates – que queriam continuar a governar a cidade-império de acordo com as tradições e as instituições antigas, como se Roma fosse ainda uma pequena cidade-estado do Lácio, o pequeno “chiqueiro de Rómulo” na formulação de Cícero. Por exemplo, a recusa constante e obstinada do Senado em conceder terras aos soldados reformados levou a que estes passassem a depender cada vez mais do respectivo comandante para obterem a merecida compensação pelos anos de serviço militar nas legiões. Resultado: as legiões passaram gradualmente a desviar a sua lealdade do Governo da República para a figura do General, o garante da terra, com as consequências que se conhecem: o derrube da República por um general brilhante que comandava a lealdade cega do seu exército.
Como exemplo desta intransigência cega, transcrevo um excerto deste primeiro livro, uma magnífica diatribe do conservador Lúcio Cecílio Metelo Dalmático Pontifex Maximus – um nome extraordinário – contra a proposta do demagogo Saturnino que pugnava pela distribuição de terras pelos soldados veteranos da campanha do Norte de África contra o rei da Numídia, Jugurta:
“Lúcio Cecílio tomou a palavra e a sua fúria, bem disfarçada até então, rebentou subitamente.
- Roma é exclusiva! - berrou tão alto que alguns dos seus ouvintes se sobressaltaram - Como pode algum romano honrado pela participação nesta Assembleia propor um programa destinado a transformar o resto do mundo em imitações dos romanos?
A habitual pose distante e superior de Dalmático desaparecera; estava inchado, ruborizado, as veias abaixo das bochechas rosadas e rechonchudas tinham o mesmo tom. E todo ele tremia, vibrava quase tão rapidamente como as asas de uma traça, de tão furioso que estava. Fascinados, receosos, todos os homens da assembleia se inclinavam para ouvir um Dalmático Pontifex Maximus com cuja existência nunca haviam sonhado.
- Pais conscritos, todos conhecemos este romano, não é verdade? - bramiu. - Lúcio Apuleio Saturnino é um ladrão, um especulador, uma vulgaridade efeminada, um conspurcador de rapazinhos que nutre desejos repugnantes pela irmã e pela filha, um fantoche manipulado pelo marionetista do Arpino, uma barata dos piores antros de Roma, um proxeneta, um maricas, um pornógrafo, a criatura no extremo de cada pénis da cidade! O que sabe ele de Roma, o que sabe o seu bonecreiro do Arpino acerca de Roma? Roma é exclusiva! Roma não pode ser lançada ao mundo como a merda ou o cuspo que se lançam nos esgotos! Iremos suportar a diluição da nossa raça através de uniões híbridas com as mulheres esfarrapadas de cinquenta povos? E no futuro, viajaremos até lugares distantes de Roma para ouvirmos o ultraje de um calão latino abastardado? Eles que falem grego! Que adorem Serápis do escroto ou Astarte do ânus! O que nos interessa? Mas vamos dar-lhes Quirino? Quem são os Quirites, os filhos de Quirino? Somos nós! Pois quem é Quirino? Só um romano o sabe! Quirino é o espírito da cidadania romana; Quirino é o deus da assembleia de homens romanos; Quirino é o deus invicto, porque Roma nunca foi conquistada, e nunca será conquistada, caros Quirites!
A assembleia rompeu em aplausos; enquanto Dalmático Pontifex Maximus cambaleava até ao seu banco, quase se abatendo sobre ele, os homens choravam, batiam os pés, batiam palmas até as mãos lhes doerem, viravam-se uns para os outros e abraçavam-se, de lágrimas a escorrerem-lhes pelo rosto.”


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