sábado, 20 de dezembro de 2008

Diário de um inútil


Vivemos na era da exaltação do "fazer" em detrimento do "ser".


Nos dias que correm as universidades estão reduzidas a fábricas de produção em massa de cumpridores de tarefas. Todos os anos fornadas de jovens iludidos e pateticamente pretensiosos são despejados no mercado de trabalho. Todos eles são fruto da produção massificada e estandardizada, como parafusos indistinguíveis. A sua função será impulsionar e optimizar a performance do sistema. Para isso não precisam de pensamento crítico, nem de reflexão, nem de filosofia, nem de literatura, nem de arte, nem de contestação. São formados para executar. E executar é a sua missão. E devem fazê-lo eficientemente. Eficiência, performance, produtividade, flexibilidade, competitividade, pro-actividade, “soft skills” são o léxico sagrado do sistema, e todos os jovens o devem dominar e aplicar. Se algo não tem aplicação prática imediata, ou se não acrescenta valor mercantil, deve ser abatido, pois é considerado inútil. Lembro-me de ouvir o Sr. João Salgueiro, essa figura tenebrosa, defender, em certo programa televisivo, que cursos universitários que invariavelmente conduzam ao desemprego, como as Humanidades, deviam deixar de ser financiados, pois tal constitui um desperdício de recursos. O completo desenvolvimento intelectual do Homem, a autonomia do indivíduo, a promoção do espírito crítico e da criatividade são um desperdício de recursos. As universidades devem deste modo resignar-se a cumprir a parte que lhes cabe dentro do sistema, que é a de fornecer, de acordo com as leis de mercado da oferta e da procura, operadores preparados para assumirem os seus postos. Tecnocratas que saibam executar sem pensar.