sábado, 10 de janeiro de 2009

César e Catão

Nenhuma outra civilização foi tão pródiga em homens extraordinários como o foi a Roma antiga, sobretudo no período que antecedeu o final da República (século I a.C.). Nesta época, a cidade de Rómulo foi berço de vultos como Caio Mário, Lúcio Cornélio Sila, Caio Júlio César, Cneu Pompeu Magno, Marco Túlio Cícero ou Marco Pórcio Catão - todos eles actores principais no palco da História de Roma e da civilização ocidental.

Sobretudo duas figuras me fascinam: César e Catão (note-se, Catão, o jovem, contemporâneo de César e não o seu bisavô, Catão, o velho, o conhecido fanático anti-Cartago). Bem sei que a História, sendo permeável aos valores pessoais e à visão particular daqueles que a estudam, não é uma disciplina consensual e muito menos uma ciência exacta (nem tem essa pretensão, ao contrário de muitas ditas "ciências" sociais). César, por exemplo, ainda hoje desperta ódios e paixões (ui que cliché), discussões e controvérsias: ora é visto como um general e político brilhante, um reformador generoso e amado pelo povo, ora é tido como um autocrata execrável que mantinha aspirações evidentes à realeza. Todavia, ódio e admiração são a marca que os grandes homens produzem nos seus semelhantes inferiores.

César e Catão foram talvez os dois maiores romanos do seu tempo. Tinham caracteres absolutamente opostos, a ponto de o historiador Salústio (amigo e protegido de César) declarar que um era a antítese do outro. Ambos lograram alcançar a imortalidade, o único tipo de imortalidade permitida aos homens – a lembrança, a recordação, um lugar na galeria daqueles que a História recorda e recordará para todo o sempre. Os seus destinos cruzaram-se inexoravelmente, tanto no campo de batalha, como na arena política. É fascinante observar como é que dois homens tão distintos, dois inimigos encarniçados, podem ser simultaneamente tão dignos de admiração e louvor.

César era patrício de nascimento. Provinha de uma das mais antigas e augustas famílias de Roma, a gens Julia, que a mitologia colocava como descendente de Iulo, filho de Eneias, o príncipe troiano filho de Anquises e da deusa Vénus. Catão pertencia a uma influente família plebeia, a gens Porcia, que a genealogia colocava como descendente de humildes camponeses de Túsculo. César era carismático e eloquente, sendo, com efeito, um dos maiores oradores de Roma na altura. Fez carreira de advogado nos tribunais do Forum. Foi eleito para todas as magistraturas superiores in suo anno, ou seja, foi sempre eleito à primeira, com a idade exacta que a lei e os costumes prescreviam, um feito notável no mundo político de Roma. Catão era tido como um orador medíocre, enfadonho e irascível. As suas arengas e discursos fastidiosos contra a dissolução dos costumes, contra a ambição dos patrícios, contra a violação da mos maiorum (a ordem estabelecida, a constituição não escrita de Roma), contra o progresso das normas e dos valores, pareciam intermináveis. Nunca passou de pretor. César era conhecido pela sua prodigalidade, generosidade e misericórdia. Ao contrário do sanguinolento e celerado Sila, quando venceu a guerra civil e foi designado ditador (no sentido romano do termo) pelo Senado, César não ordenou proscrições, perdoando todos os adversários políticos. Entendia que a oposição era necessária para manter a mente de um homem aguçada. Distribuiu terras nas províncias para os veteranos das legiões e para os proletarii da urbe. Concedeu a cidadania integral aos habitantes da Gália italiana além do rio Pó, pondo fim a uma situação injusta, que se arrastava havia vários anos. Combateu a rapacidade dos plutocratas e a corrupção dos governadores provinciais e desafiou o poder aristocrático do Senado. Instituiu um novo calendário de 365 dias, baseado no calendário egípcio, que vigorou no Ocidente até 1582. Empreendeu um vasto programa de obras públicas em Roma e nas províncias. Regulou a distribuição gratuita de cereais pelos pobres. Engrandeceu Roma.

Do ponto de vista militar, Júlio César era simplesmente genial. Ao contrário dos generais de divã como Pompeu, que movimentavam os exércitos gigantescos de forma lenta e ponderada e de acordo com os manuais, as poucas legiões de César movimentavam-se com uma rapidez inacreditável e fulminante, que deixava os seus inimigos atónitos. O Grande General inaugurou assim uma nova estratégia na história militar romana: a rapidez de deslocação e de movimentos de pequenos exércitos de modo a compensar a inferioridade numérica – uma blitzkrieg romana. Muitas vitórias se contam no currículo de César, em locais tão dispares como o Norte de África (batalha de Tapso), o Egipto (Batalha de Alexandria), a Gália (a grande vitória em Alésia), a Península Ibérica (batalha de Munda), a Grécia (batalha de Farsália)...


Catão era conhecido pela sua coerência absoluta, pela sua integridade moral e pela sua incorruptibilidade. Quando foi eleito questor urbano, perseguiu e processou impiedosamente todos os funcionários corruptos do Tesouro, apesar das pressões e ameaças para que não o fizesse. Era incorruptível ao ponto do fanatismo. Defendia implacavelmente e fanaticamente a tradição e a mos maiorum. Opunha-se encarniçadamente a qualquer progresso que minasse os valores e as instituições romanas. Odiava os patrícios ambiciosos e sedentos de poder pessoal como César e Sila e desprezava os novi homines como Pompeu que escarneciam da mos maiorum. Acreditava que nenhum homem tinha o direito de se elevar acima dos seus semelhantes numa República de cidadãos livres. Era fervorosamente republicano. Abominava o luxo e a ostentação. Vivia uma vida frugal, de ascetismo moral e de austeridade material. Era adepto da filosofia estóica de Zenão. Era inflexível e severo. Raramente se lhe vislumbrava um sorriso no rosto. Parecia desprovido de qualquer paixão interior que não a firmeza de aço da sua moral e das suas convicções. Ao contrário do insinuante César, Catão dirigia-se aos outros de forma ríspida e áspera.

A sua morte é um exemplo do seu carácter: segurando numa mão o Fédon de Platão, obra que descreve os últimos ensinamentos de Sócrates, que escolheu morrer com a cicuta a trair os seus ensinamentos e os seus ideais, e empunhando uma espada na outra, Catão, escolheu o suicídio. Enterrou a espada na barriga, puxando-a para a direita e para a esquerda para alargar o golpe no abdómen. Como tinha uma mão lesionada, o golpe desferido não foi mortal. No entanto, Catão caiu ao chão, não resistindo à dor excruciante. Os seus criados acorreram ao seu quarto e chamaram o médico que, apanhando as entranhas do senador, voltou a colocá-las no abdómen, encaixando de novo os órgãos e cosendo o corte horrendo na barriga. Catão estava salvo. Chegou ainda a abrir os olhos e a vislumbrar a barriga ensanguentada. Então, imediatamente levou as duas mãos aos pontos e começou rasgá-los, a rasgar e a arrancar freneticamente, até escancarar a horrenda ferida e então, no meio de espasmos, e perante o olhar horrorizado dos espectadores, começou a tirar os intestinos, destruindo-se obstinada e brutalmente, peça por peça, até, por fim, se esvair em sangue e entranhas. Quando César, vencedor da guerra civil contra os auto-intitulados Republicanos, liderados, entre outros, por Catão e Pompeu, chegou a Útica (no Norte de África) recebeu uma mensagem do falecido Catão: “recuso-me a dever a minha vida a um tirano, um homem que infringe a Lei perdoando outros homens, como se a Lei lhe desse o direito de ser o seu amo. A Lei não lho dá”. Só os reis têm o poder de vida e morte sobre os seus súbditos. E Catão recusava-se a conceder a um seu igual tamanho desígnio sobre o seu destino. Preferiu assim a liberdade à vida, suicidando-se, mantendo-se livre até ao fim e coerente com os seus princípios, como Sócrates o fora.

Este heroísmo estóico e sangrento inspirou muitos que, tal como Catão, consideravam combater em nome da liberdade, da libertas. Mesmo depois de morto Marco Pórcio Catão continuava a ser a nemesis de César, o seu mais implacável inimigo.


Quanto a Júlio César, a sua morte não foi menos romanesca. Afirmando agir em nome da liberdade perdida, 23 conspiradores, auto-intitulados de Liberatores (libertadores), encabeçados por Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino, apunhalaram o ditador na Curia Pompeia, sede do Senado na altura, nos idos de Março de 44 a.C. Plutarco afirma que César nada disse no momento da sua morte, resignando-se ao seu destino inevitável, puxando com a mão esquerda a toga sobre o rosto, ao ver o seu protegido, Bruto, entre os conspiradores. Caio Júlio César, o Grande Romano, morreu jazendo aos pés da estátua do seu antigo adversário, Pompeu.