sábado, 23 de maio de 2009

O "jornalismo" de Manuela Moura Guedes

Apesar de não ser apreciador do estilo de "justiceiro popular" de Marinho Pinto, junto-me respeitosamente à horda de internautas que tem vindo a congratular - em blogues, fóruns, caixas de comentários - o bastonário da Ordem dos Advogados pelas suas bengaladas, ontem em directo, à inenarrável Manuela Moura Guedes.
Convenhamos, dar o epíteto de "jornalista" a Manuela Moura Guedes (MMG) é insultar automaticamente o resto da classe profissional. As insinuaçõezinhas; as acusações dissimuladas; os insultos insidiosos; os comentários pessoais boçais disfarçados de notícia; as provocações veladas que trucidam a tão requerida imparcialidade do jornalista; enfim, todo o proverbial estilo circense que é apanágio de MMG constitui-se como um verdadeiro insulto à inteligência dos portugueses.
Ontem, por exemplo, MMG passou os 15 minutos da "entrevista" ao bastonário da Ordem dos Advogados a acusá-lo de ser mentiroso, de ser bufo, de fazer fretes políticos e de ser anti-democrático, entre outras coisas. Lamentável.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sonolência

A CULTRA – para quem não conhece, Cooperativa Culturas do Trabalho e do Socialismo, uma cooperativa cultural que organiza cursos e conferências nos domínios da História, da Ciência Política, da Economia, da Sociologia e das Culturas do Trabalho – está, desde o início de Maio, a promover um conjunto de conferências sobre a história do movimento operário em Portugal e na Europa. A primeira sessão abordou a história do Socialismo Reformista e a segunda abordou o Sindicalismo Revolucionário. A conferência de ontem teve como tema o anarquismo.

Os oradores convidados foram a historiadora catalã Cristina Mas e o professor António Ventura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A intervenção do professor António Ventura foi deveras interessante. O movimento anarquista em Portugal não podia ter sido mais tipicamente português.

A Europa tremia. Em Espanha a fulminante acção directa (leia-se atentados à bomba) dos anarquistas saldou-se em ruas pejadas de dezenas de mortos e feridos (sobretudo na “cidade da cólera”, Barcelona); na Rússia os anarquistas lograram dinamitar o czar Alexandre II; em 1894, Carnot, o presidente francês, foi apunhalado até à morte; o rei Humberto da Itália (em 1900) e a imperatriz Sissi da Áustria (em 1898) foram também enviados para o inferno, ceifados pelo ardor anti-autoritário e anti-capitalista da justiça anarquista – mas nada se compara decerto com a espectacularidade das acções anarquistas em Portugal: distribuição de folhetins subversivos; prisão, por desacatos à autoridade, de alguns anarquistas que amiúde se apressavam a renegar as suas crenças políticas; militantes anarquistas que acabaram os seus dias a trabalhar como funcionários públicos; o apedrejamento (se se pode chamar de apedrejamento ao arremesso de uma pedra singular) da carruagem real em 1896 por um pobre diabo e a explosão (sem vitimas ou feridos) de uma bomba na escadaria do prédio do médico que diagnosticou distúrbios mentais ao supracitado pobre diabo. Como o professor Ventura referiu, é caso para dar razão à frase de Eça de Queirós: “em Portugal tudo dá sono, até o anarquismo”.

E não foi sempre assim no nosso país? O marasmo sonolento, a inércia crónica, as crises que duram décadas, a decadência permanente, o atavismo, 48 anos de ditadura decrépita e caduca, o ditador que não é derrubado num golpe espectacular regado a sangue, pois o tiranicida não é um émulo de Bruto ou de Harmódio e Aristogíton, mas uma cadeira, o povo com alma de camponês obediente que oprimido nada faz, o cancro que não fulmina, mas que mói e remói as entranhas, lentamente, paulatinamente. A lassidão, o cansaço. Em Portugal tudo dá sono.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Os Pecados Capitais do Ensino por Competências

Nuno Crato, professor de Matemática no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, escreveu um artigo com o título "Ficamos pelo Bolonhês?" publicado no n.º 31 da Revista "Ensino Superior" do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESUP).
O excerto do artigo aqui publicado foi pilhado ao blogue De Rerum Natura e corresponde totalmente à opinião que neste espaço tentei expressar com os posts "Diário de um inútil", mas que, por inépcia, não soube fazer com a clareza e a inteligência demonstradas pelo professor Nuno Crato.


Uma abominação cega a uma atitude ou corrente ideológica não é o equivalente a uma vacina — as pessoas mais influenciáveis pela imprensa são, muitas vezes, as que dizem nunca acreditar nas notícias. Assim, o desafecto primário ao «eduquês» por parte de docentes universitários tem levado, paradoxalmente, a uma aceitação acrítica de ideias e teorias derivadas do construtivismo pedagógico dogmático. O caso mais chocante é o transporte da moda do “ensino por competências” para a reforma de Bolonha.

Expliquemo-nos. Uma das ideias que no Ensino Básico actualmente melhor consubstancia o «eduquês» é a ideia da organização do ensino em competências e não em conteúdos. As competências nasceram no mundo empresarial como reacção a um ensino que não prepara directamente os jovens para a vida activa. Dizia-se que o conhecimento livresco não bastava para tornar os jovens competentes no mercado de trabalho e procurou-se então, de forma cega, prepará-los para as tarefas exigidas na vida activa.

Com um fundamento talvez generoso — ou, pelo menos, tendo receptividade em algumas mentes generosas —, a ideia é totalmente desapropriada fora do ensino profissionalizante. Aí sim, pode ter sentido preparar directamente os estudantes para usar uma broca ou para assar um pato. Mas mesmo aí o ensino não pode estar completamente limitado às competências práticas. Há aspectos de cultura geral que não podem ser desprezados, sob pena de se formarem gerações cegas à cultura e à vida e completamente incapazes de se adaptarem às transformações de um mundo do trabalho em transformação acelerada.

No ensino universitário, a teoria das competências é completamente oposta à ideia de universidade, um local de cultura onde os jovens se preparam não por lhes ensinarem a maneira de apertar parafusos ou de redigir um relatório técnico, mas sim por adquirirem os conhecimentos e o treino necessários para poderem descobrir como se aperta um parafuso ou quais são os pontos em causa num estudo que devam ser transportados para os relatórios técnicos. Ou seja, no ensino universitário, mais que em qualquer outro, reconhece-se o valor especial da cultura, do estudo e do conhecimento — mesmo da cultura, do estudo e do conhecimento que, aparentemente, e apenas aparentemente, não têm qualquer aplicação prática. Como gostam de dizer os físicos, nada é mais prático do que uma boa teoria.

O Decreto-Lei 74/2006 de 24 de Março, que concretiza em Portugal o dito processo de Bolonha, revela um deslumbre pela teoria «eduquesa» das competências.Não pode ser acaso; é alvedrio. Logo no preâmbulo, afirma visar a «passagem de um ensino baseado na transmissão de conhecimentos para um ensino baseado no desenvolvimento de competências». E repete a mesma ideia falando da «mudança do paradigma de ensino de um modelo passivo, baseado na aquisição de conhecimentos, para um modelo baseado no desenvolvimento de competências». Não explica, é claro, nem poderia explicar, por que razão identifica a «aquisição de conhecimentos» com um «modelo passivo» e por que razão as competências são implicitamente activas. Trata-se apenas de uma profissão de fé, como as que nos habituámos a ver nos teóricos dogmáticos do «eduquês». E uma profissão de fé falsa: há transmissão de conhecimentos activa e há aquisição de competências acrítica.

Nas universidades, para cumprir o «novo paradigma» do ensino activo, os professores perderam dias e dias a reformular programas e a inserir referências às «competências multiculturais» da Álgebra Linear e às «competências comunicacionais» da História da Antiguidade. Perderam-se e perdem-se dias e dias a preencher formulários que são pura ficção, onde o palavreado «eduquês» das competências é obrigatório e onde a imaginação é imprescindível para poder mentir sobre o número de horas que os estudantes vão dedicar à cadeira e sobre o envolvimento activo dos alunos na construção do seu próprio conhecimento. Felizmente, a maioria dos docentes universitários tem o bom senso de ignorar o tremedal teórico das competências e de continuar a basear o seu ensino na louvável e imprescindível transmissão de conhecimentos.

Nuno Crato