sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sonolência

A CULTRA – para quem não conhece, Cooperativa Culturas do Trabalho e do Socialismo, uma cooperativa cultural que organiza cursos e conferências nos domínios da História, da Ciência Política, da Economia, da Sociologia e das Culturas do Trabalho – está, desde o início de Maio, a promover um conjunto de conferências sobre a história do movimento operário em Portugal e na Europa. A primeira sessão abordou a história do Socialismo Reformista e a segunda abordou o Sindicalismo Revolucionário. A conferência de ontem teve como tema o anarquismo.

Os oradores convidados foram a historiadora catalã Cristina Mas e o professor António Ventura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A intervenção do professor António Ventura foi deveras interessante. O movimento anarquista em Portugal não podia ter sido mais tipicamente português.

A Europa tremia. Em Espanha a fulminante acção directa (leia-se atentados à bomba) dos anarquistas saldou-se em ruas pejadas de dezenas de mortos e feridos (sobretudo na “cidade da cólera”, Barcelona); na Rússia os anarquistas lograram dinamitar o czar Alexandre II; em 1894, Carnot, o presidente francês, foi apunhalado até à morte; o rei Humberto da Itália (em 1900) e a imperatriz Sissi da Áustria (em 1898) foram também enviados para o inferno, ceifados pelo ardor anti-autoritário e anti-capitalista da justiça anarquista – mas nada se compara decerto com a espectacularidade das acções anarquistas em Portugal: distribuição de folhetins subversivos; prisão, por desacatos à autoridade, de alguns anarquistas que amiúde se apressavam a renegar as suas crenças políticas; militantes anarquistas que acabaram os seus dias a trabalhar como funcionários públicos; o apedrejamento (se se pode chamar de apedrejamento ao arremesso de uma pedra singular) da carruagem real em 1896 por um pobre diabo e a explosão (sem vitimas ou feridos) de uma bomba na escadaria do prédio do médico que diagnosticou distúrbios mentais ao supracitado pobre diabo. Como o professor Ventura referiu, é caso para dar razão à frase de Eça de Queirós: “em Portugal tudo dá sono, até o anarquismo”.

E não foi sempre assim no nosso país? O marasmo sonolento, a inércia crónica, as crises que duram décadas, a decadência permanente, o atavismo, 48 anos de ditadura decrépita e caduca, o ditador que não é derrubado num golpe espectacular regado a sangue, pois o tiranicida não é um émulo de Bruto ou de Harmódio e Aristogíton, mas uma cadeira, o povo com alma de camponês obediente que oprimido nada faz, o cancro que não fulmina, mas que mói e remói as entranhas, lentamente, paulatinamente. A lassidão, o cansaço. Em Portugal tudo dá sono.