quarta-feira, 10 de junho de 2009

O sarampo da humanidade

O nacionalismo é uma doença infantil: é o sarampo da humanidade. (Albert Einstein)


Ao contrário do que sugerem os nacionalistas, o nacionalismo é uma invenção recente. É um produto histórico, pós-revolução francesa, estimulado e criado para substituir o vazio provocado pela derrocada das instituições feudais-absolutistas. As ideias de nação e de identidade nacional, forjadas na bruma e no mito, por heróis lendários e galantes e por povos sofredores, lutando pela liberdade, são reminiscências do Romantismo. As mui sagradas e incontestáveis identidades nacionais não passam na verdade de exercícios de mitologia e absurdos históricos. Nas escolas as criancinhas são ensinadas que os portugueses são descendentes de Viriato e dos intrépidos lusitanos amantes da liberdade, mas não dos árabes e berberes castanhos – os “mouros”, qual horda estrangeira de bárbaros escuros – que povoaram a península durante quase oito séculos; é lhes dito que a Restauração foi levada a cabo por um grupo de fidalgos patriotas em nome da independência da nação, mas não que a defenestração de Miguel de Vasconcelos se deveu acima de tudo à reacção das elites contra a perda de privilégios; são levadas a crer que os portugueses foram os senhores coloniais mais humanistas – veja-se só, até houve caboclos e mulatos reconhecidos pelos seus pais brancos! – e que as colónias ultramarinas portuguesas eram idílicos cenários de harmonia multirracial. A história é encarada como uma sucessão narrativa de actos gloriosos, um caminho linear e perfeito, construído por heróis pátrios imaculados, génios visionários e resolutos, guiados por deus. Enfim, uma infantilidade.


É este carácter simplista e redutor que confere ao nacionalismo a sua grande popularidade entre as massas. O nacionalismo tem o mérito de ser facilmente entendível e assimilado por qualquer analfabeto, apesar de não poder ser objectivamente explicado. O discurso dos demagogos nacionalistas está imbuído de toda uma parafernália de misticismos, expressões emocionais arrebatadoras, divinização e panegírico dos “pais fundadores”, dos “mártires”, dos “heróis”, dos “salvadores da pátria”, dos “homens providenciais” e outros que tais, um sentido de destino inexorável e de Providência que guia o Povo e a Nação (com letra maiúscula como o respeito exige) e uma aura de grandiloquência e de demência quase religiosa, que leva à apoteose os mais incautos e ignorantes. Como A. C. Grayling reparou, “(d)iz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o "génio" de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o "espírito da nação" como "a expressão dos seus olhos"; e abundam as afirmações sem sentido deste género.” [1]

Este discurso virulento é muito atractivo para as massas – na verdade os demagogos nacionalistas são exímios especialistas no que se refere à psicologia de massas. Toda a sua retórica é desindividualizante, totalizadora, organicista, desenhada para criar nos indivíduos um fervor marcial inebriante, para os transformar numa massa informe de meios sacrificáveis, de soldados da nação. “O inimigo é este espírito de gramofone”, escreveu George Orwell.

Simultaneamente, a visão maniqueísta e desumanizante está também omnipresente – urge defender a nossa nação, o nosso povo, a nossa cultura do outro, do invasor, do estrangeiro, do inimigo comum. Claro que a nossa nação e a nossa cultura são superiores e especiais, todas os outras são inferiores e o nosso povo é evidentemente o mais glorioso, o que alcançou maiores proezas, os outros são insectos. É assim que o nacionalista raciocina. É simples. Nós somos bons, os outros são maus.


A única forma de se combater este sarampo, esta doença infantil como lhe chamou Einstein, é submeter as premissas nacionalistas à pura e dura análise racional. Podemos ser escravos das ideias que, por acaso, nas circunstâncias contingentes da nossa infância nos foram induzidas e ensinadas, podemos aceitar essas crenças acefalamente, acriticamente e continuar a viver como o escravo de sorriso resignado que nasceu agrilhoado e é ignorante da liberdade, ou podemos ser livres, ousando submeter as nossas crenças mais profundas e inquestionáveis ao exame permanente da Razão, da dúvida metódica, da deliberação sem fronteiras e da argumentação liberta de dogmas e preconceitos.

Podemos contentar-nos com o conforto da escravatura fácil e crédula ou podemos ousar ser reis de nós próprios.


[1] A. C. Grayling, retirado do livro O Significado das Coisas (Gradiva, 2003). Artigo completo disponível na revista Crítica.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Nacionalismo

Patriota: indivíduo a quem os interesses de uma parte parecem superiores aos interesses do todo. O joguete dos estadistas e a ferramenta dos conquistadores.Ambrose Gwinnett Bierce


Nacionalismo – sentimento exacerbado de patriotismo; ideologia colectivista que tem como referência identitária a nação; doutrina política que pugna pela defesa dos interesses da nação a expensas de quaisquer outros. A estas definições assépticas próprias de qualquer enciclopédia ou dicionário dever-se-ia acrescentar uma outra: o nacionalismo é o instrumento dos tiranos, é a hipnose que bestializa e mesmeriza as massas, é o produtor de guerras e matanças, é o fenómeno cuja história está escrita com ódio e sangue indelével. O nacionalismo é um mal.


No início do século XXI, passada a era dos pogroms, dos campos de morte e do apartheid, já não há muitos que defendam e apregoem abertamente e sem vergonhas os disparates do racismo e da xenofobia. Qualquer político que se declare explicitamente racista ou xenófobo está acabado. Até o PNR tem reticências em se anunciar abertamente como um partido racista e é amiúde que assistimos o seu dirigente, José Pinto Coelho, afirmar que não tem nada contra os “imigrantes em geral” e que o seu partido não discrimina aqueles que se queiram juntar à causa da soberania nacional, “quer sejam brancos, quer sejam negros”. Com o nacionalismo a história é outra. Por essa Europa fora, por esse mundo fora, o nacionalismo está a ressurgir. Um líder político que não tenha pejo em vestir-se de paladino pela cruzada da soberania e do interesse nacional – contra os eurocratas de Bruxelas que nos querem tirar os subsídios e proibir-nos as touradas, contra as lojas dos chineses, que arruínam os nossos pobres e honestos comerciantes com os seus produtos fabricados por escravos e criancinhas e com a mania intolerável que os seus donos amarelos têm de trabalhar no dia de todos os santos, contra os defensores do acordo ortográfico, porque nos querem pôr a falar brasileiro quando a língua portuguesa é nossa propriedade, a favor do Durão Barroso, porque é português, a favor do Cristiano Ronaldo, porque é português, a favor do cão do Obama, porque é português – pode recolher dividendos políticos e a simpatia do eleitorado. Tudo isto seria mais ou menos inócuo se o nacionalismo não tivesse as suas raízes no racismo e na xenofobia.

Qual trilogia nefasta, nacionalismo, xenofobia e racismo andam de braços dados e redundam num mesmo princípio: o ódio pelo outro – o ódio por aquele que não é da mesma raça, o ódio por aquele que não nasceu no nosso país, o ódio por aquele que não tem a mesma cultura ou fala a mesma língua, o ódio por aquele que é diferente.

Basta atentarmos apenas numa simples ideia enunciada pelo filósofo Peter Singer para percebermos quão irracional o nacionalismo é – a ideia de que não há razão nenhuma para considerarmos que o valor de uma vida humana diminui quando passamos a nossa fronteira nacional (princípio da igualdade na consideração de interesses). Assim, sempre que defendemos que devemos comprar produtos nacionais, não porque estes sejam de qualidade superior, mas apenas porque são “nacionais” e porque devemos ajudar em primeiro lugar “os nossos”, estamos na verdade a defender a ideia de que, por qualquer razão que a própria razão desconhece, os interesses dos “nossos” têm mais valor que os interesses dos “outros”. Mas o que torna “os nossos” tão especiais? Porque têm eles mais direito à nossa ajuda? Porque têm eles mais direito ao bem-estar? Se ninguém conseguir justificar o princípio nacionalista de que a vida dos “nossos” tem mais valor do que a vida dos “outros”, não há qualquer razão para acreditarmos que temos deveres especiais ou suplementares para com os nossos compatriotas. Fica patente a oposição entre “nós” e os “outros”. É esta oposição o sustentáculo de todos estes princípios criminosos, o racismo a xenofobia e o nacionalismo. Estas teorias advogam que cada indivíduo divida o mundo em dois grupos – nós e todos os outros – e que encare os interesses do primeiro grupo como mais importantes do que os interesses do segundo grupo. Mas porque raio são os nossos interesses mais importantes que os interesses dos outros? As nossas vidas serão mais valiosas? Seremos mais inteligentes? Mais instruídos? Mais belos? Seremos nós de algum modo especiais e eles – todos eles, todos os “não-nós” – sub-humanos? A resposta é evidentemente não. Um português não é de modo algum mais especial que um etíope ou um djibutiano. Como James Rachels, filósofo americano, notou estas doutrinas são “moralmente arbitrárias”, pois defendem o tratamento diferenciado das pessoas, apesar de não haver entre elas diferenças que o justifiquem. Se tendemos a repugnar a ideia de que o facto de um indivíduo pertencer ao grupo racial A é motivo suficiente para atribuirmos maior valor à sua vida, devemos também rejeitar o princípio pelo qual o acaso de esse indivíduo ter nascido no país X é razão suficiente para se atribuir maior peso aos seus interesses. Pigmentação da pele, textura do cabelo, cor dos olhos, altura, género ou nacionalidade são propriedades irrelevantes do ponto de vista moral.

Para resumir, podemos citar o escritor Mario Vargas Llosa que afirmou que "o nacionalismo é uma ideologia que converte em um valor o acidente mais banal, que é o lugar de nascimento de uma pessoa e faz disso não só um valor como, de alguma forma, um privilégio". Ora isto, além de irracional é, como comprova a história pejada de cadáveres do século XX, perigoso.