O nacionalismo é uma doença infantil: é o sarampo da humanidade. (Albert Einstein)
Ao contrário do que sugerem os nacionalistas, o nacionalismo é uma invenção recente. É um produto histórico, pós-revolução francesa, estimulado e criado para substituir o vazio provocado pela derrocada das instituições feudais-absolutistas. As ideias de nação e de identidade nacional, forjadas na bruma e no mito, por heróis lendários e galantes e por povos sofredores, lutando pela liberdade, são reminiscências do Romantismo. As mui sagradas e incontestáveis identidades nacionais não passam na verdade de exercícios de mitologia e absurdos históricos. Nas escolas as criancinhas são ensinadas que os portugueses são descendentes de Viriato e dos intrépidos lusitanos amantes da liberdade, mas não dos árabes e berberes castanhos – os “mouros”, qual horda estrangeira de bárbaros escuros – que povoaram a península durante quase oito séculos; é lhes dito que a Restauração foi levada a cabo por um grupo de fidalgos patriotas em nome da independência da nação, mas não que a defenestração de Miguel de Vasconcelos se deveu acima de tudo à reacção das elites contra a perda de privilégios; são levadas a crer que os portugueses foram os senhores coloniais mais humanistas – veja-se só, até houve caboclos e mulatos reconhecidos pelos seus pais brancos! – e que as colónias ultramarinas portuguesas eram idílicos cenários de harmonia multirracial. A história é encarada como uma sucessão narrativa de actos gloriosos, um caminho linear e perfeito, construído por heróis pátrios imaculados, génios visionários e resolutos, guiados por deus. Enfim, uma infantilidade.
É este carácter simplista e redutor que confere ao nacionalismo a sua grande popularidade entre as massas. O nacionalismo tem o mérito de ser facilmente entendível e assimilado por qualquer analfabeto, apesar de não poder ser objectivamente explicado. O discurso dos demagogos nacionalistas está imbuído de toda uma parafernália de misticismos, expressões emocionais arrebatadoras, divinização e panegírico dos “pais fundadores”, dos “mártires”, dos “heróis”, dos “salvadores da pátria”, dos “homens providenciais” e outros que tais, um sentido de destino inexorável e de Providência que guia o Povo e a Nação (com letra maiúscula como o respeito exige) e uma aura de grandiloquência e de demência quase religiosa, que leva à apoteose os mais incautos e ignorantes. Como A. C. Grayling reparou, “(d)iz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o "génio" de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o "espírito da nação" como "a expressão dos seus olhos"; e abundam as afirmações sem sentido deste género.” [1]
Este discurso virulento é muito atractivo para as massas – na verdade os demagogos nacionalistas são exímios especialistas no que se refere à psicologia de massas. Toda a sua retórica é desindividualizante, totalizadora, organicista, desenhada para criar nos indivíduos um fervor marcial inebriante, para os transformar numa massa informe de meios sacrificáveis, de soldados da nação. “O inimigo é este espírito de gramofone”, escreveu George Orwell.
Simultaneamente, a visão maniqueísta e desumanizante está também omnipresente – urge defender a nossa nação, o nosso povo, a nossa cultura do outro, do invasor, do estrangeiro, do inimigo comum. Claro que a nossa nação e a nossa cultura são superiores e especiais, todas os outras são inferiores e o nosso povo é evidentemente o mais glorioso, o que alcançou maiores proezas, os outros são insectos. É assim que o nacionalista raciocina. É simples. Nós somos bons, os outros são maus.
A única forma de se combater este sarampo, esta doença infantil como lhe chamou Einstein, é submeter as premissas nacionalistas à pura e dura análise racional. Podemos ser escravos das ideias que, por acaso, nas circunstâncias contingentes da nossa infância nos foram induzidas e ensinadas, podemos aceitar essas crenças acefalamente, acriticamente e continuar a viver como o escravo de sorriso resignado que nasceu agrilhoado e é ignorante da liberdade, ou podemos ser livres, ousando submeter as nossas crenças mais profundas e inquestionáveis ao exame permanente da Razão, da dúvida metódica, da deliberação sem fronteiras e da argumentação liberta de dogmas e preconceitos.
Podemos contentar-nos com o conforto da escravatura fácil e crédula ou podemos ousar ser reis de nós próprios.
[1] A. C. Grayling, retirado do livro O Significado das Coisas (Gradiva, 2003). Artigo completo disponível na revista Crítica.

