Imagine que entra na sua sala. Olha em volta, observa, se o dia for solarengo semicerra os olhos, há demasiada luz e os seus olhos são sensíveis. Pestaneja, volta a perscrutar a sala e é então que se processa um pequeno milagre: você vê os seus móveis. A mesa redonda, o sofá velho, o televisor LCD, as flores coloridas de plástico, as fotografias da família, as formas e as cores. Na verdade o seu cérebro acabou de efectuar biliões e biliões de cálculos para que você pudesse reconhecer todas as formas, cores e objectos da sua modesta sala de estar. Uma proeza quotidiana que dura apenas uma fracção de segundo. Mas não se entusiasme demasiado. O mais certo é você ser apenas um ser humano normal e mediano. Afinal de contas, até a mais insignificante barata, com apenas um milhão de neurónios, consegue identificar formas e desviar-se de objectos.
Ainda assim, insignificante, é de facto um adjectivo adequado a uma barata. As nossas vorazes amigas não conseguem aprender matemática ou discorrer sobre arte. Estão condenadas a rastejar debaixo dos nossos frigoríficos e a alimentar-se das nossas migalhas até ao fim dos tempos. Simplesmente não possuem a tecnologia necessária – o extraordinário cérebro humano.
O cérebro humano é o agregado de moléculas mais espantoso e complexo do planeta, do sistema solar e, possivelmente, de todo o Universo. O nosso cérebro é a fonte da nossa sapiência, é a origem da Razão, da Ciência, da Arte, das Pirâmides, dos computadores e de todas as outras realizações da Humanidade. Deus foi provavelmente criado pelo cérebro humano. As bombas atómicas foram arquitectadas pelos cérebros de cientistas brilhantes. Os campos de extermínio nazis e os autos de fé foram pensados e criados por seres com cem mil milhões de neurónios. A pilhagem de recursos, o aquecimento global, as agressões constantes ao planeta e aos seus habitantes não humanos são a consequência da capacidade que a Humanidade tem de manipular o meio em seu redor – a marca distintiva da inteligência.
Com a inteligência de deuses e a falibilidade de anjos caídos, eis o drama da Humanidade.

