sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

"O mundo não é belo; e isso, de uma certa forma, trás um pouco de beleza"


Hoje vou despir a minha proverbial toga de pseudo-intelectual-elitista e vou discorrer acerca de um segmento de cultura popular: o anime.

Para quem não sabe, Anime é o nome dado à animação japonesa (à banda desenhada chama-se manga). E nem só de séries sanguinolentas, com personagens primárias e de aparência grotesca (o bom, detentor de todas as qualidades, incluindo a beleza física; o vilão, mostrengo abominável, representante de tudo o que existe de mau e execrável no mundo) e com enredos pueris e superficiais, se constitui o anime (na verdade, a descrição que acabei de fazer assenta sobretudo a um género específico de anime destinado a crianças e adolescentes do sexo masculino, o shonen, do qual Dragon Ball é o sumo representante entre nós). Na verdade existem séries maravilhosamente belas, com enredos bem construídos e personagens complexas e tocantes.

Vou falar-vos brevemente acerca de uma dessas séries: Kino no Tabi - The Beautiful World. Embora não muito conhecida no ocidente, esta série é, na minha opinião (e não só), absolutamente genial.

Em Kino no Tabi o mundo está dividido numa miríade de pequenos países, cidades-estado autárcicas e desconexas. Cada país possui características próprias, peculiaridades extraordinárias e “realidades surreais”. As idiossincrasias próprias de cada país constituem-se como a força motriz da série. Mas já lá irei.

A história segue as aventuras de Kino, jovem que viaja ao redor do mundo com a sua moto "Hermes" para conhecer os diferentes países e as suas culturas e, neste processo, obter respostas para dúvidas que existem na sua mente a respeito do mundo e das pessoas que o habitam. Nas suas viagens Kino obedece escrupulosamente a uma regra: ficar no máximo apenas 3 dias em cada país. Assim, pode conhecer os locais por onde viaja sem se afeiçoar demasiado a algum deles. Só houve um país onde Kino quis ficar por mais de três dias. Não vos vou obviamente dizer qual, nem porquê.
Outra regra que caracteriza a conduta de Kino nas suas viagens: ela não intervém nos acontecimentos que presencia nos diferentes países. Assume uma posição neutral de espectadora. Limita-se a observar e a seguir o seu caminho. Quando lhe perguntam porque não impediu determinado homicídio ela responde simplesmente: “porque não sou Deus”.
Kino é uma jovem melancólica e com um olhar triste e distante. Há aspectos do seu passado que são desconhecidos. Treina impreterivelmente todas as noites com o seu revólver, “persuader”. Na verdade, apesar de jovem, ela é uma exímia atiradora.

Mas vamos ao principal trunfo da série, os países visitados por Kino. Se há algo que este anime desperta nas nossas mentes é reflexão filosófica: conceitos e teorias como existencialismo, o dilema da existência, fanatismo religioso, a filosofia do absurdo de Camus, o mito de Sísifo, e até uma metáfora ao período do Terror jacobino da Revolução Francesa estão aqui presentes. Tudo isto com uma simplicidade e beleza extraordinárias e sem quaisquer tiques de pretensiosismo pseudo-intelectual. Como ficar indiferente, por exemplo, perante um país onde as pessoas passam anos a fio a construir torres gigantescas apenas porque é algo que todo mundo sempre fez, sem saberem a razão pela qual realizam esta actividade? Quando uma torre se desmorona é erguida novamente. As pessoas não se questionam, simplesmente executam. As suas vidas estão desprovidas de qualquer sentido. Ou então o que dizer do país onde todos os cidadãos beberam um elixir que, permitindo ler os pensamentos dos outros, levou não à união, mas à atomização e à dissolução social? Ou ainda o país em que as crianças, chegando aos doze anos, são operadas, com o intuito de se expurgar a “infantilidade” dos seus cérebros, tornando-as cidadãos competentes, mas robotizados, que vivem meramente para trabalharem com um sorriso artificial? Não vos direi mais para não estragar a experiência fantástica que é assistir a esta série. Só vos digo, simplesmente vejam .