Este panorama nefasto tem sido agudizado com o processo de Bolonha. Não coloco em causa a importância e a grande utilidade de um sistema de certificação europeu, nem sequer os princípios que regem (ou deveriam reger) o processo. Todavia, Bolonha tem sido utilizado como meio se proceder, cada vez mais descaradamente, à derrogação da liberdade de pensamento nas universidades e à adopção de princípios meramente mercantis como paradigma do ensino superior. Sob o pretexto da reestruturação das licenciaturas (agora 1.º ciclo), vêm sendo eliminadas todas as cadeiras (unidades curriculares) cujo valor acrescentado se traduz precisamente no incentivo do espírito crítico e da capacidade de reflexão. Essas cadeiras não representam nenhuma mais valia o sistema, pois não contribuem para o aumento da sua “performance” económica, nem acrescentam valor mercantil imediato. Deste modo, por exemplo, no caso dos cursos de economia, foram eliminadas as Histórias, as Sociologias, a Economia Política. Por outro lado, reforçaram-se as cadeiras de contabilidade, as cadeiras de gestão financeira, as auditorias. Afinal, para que é que um licenciado em economia precisa de conhecer as propostas dos economistas heterodoxos ou a ética kantiana? O mercado procura por tecnocratas que saibam preencher balancetes e calcular rácios de solvabilidade e a universidade deve fornecer a matéria-prima exigida pelo mercado.
Cada vez mais se espera que os estudantes memorizem acriticamente factos, teoremas e datas, que deverão ser depois despejados num qualquer exame. O conformismo e a aceitação pronta do saber reproduzido e veiculado são tidos como norma a emular por alunos exemplares. O debate e o criticismo não existem ou são próprios de agentes subversivos, loucos sediciosos, isolados no seio da universidade e extirpados das estruturas de poder das academias.
Os alunos, futuros operadores diligentes e subservientes, cada vez mais autistas e incapazes de questionar e contestar, de olhar ao redor, preocupam-se apenas com a questão “onde vou aplicar isto?”, ou seja, “onde poderei ser útil”?




