quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Diário de inútil (continuação)

Este panorama nefasto tem sido agudizado com o processo de Bolonha. Não coloco em causa a importância e a grande utilidade de um sistema de certificação europeu, nem sequer os princípios que regem (ou deveriam reger) o processo. Todavia, Bolonha tem sido utilizado como meio se proceder, cada vez mais descaradamente, à derrogação da liberdade de pensamento nas universidades e à adopção de princípios meramente mercantis como paradigma do ensino superior. Sob o pretexto da reestruturação das licenciaturas (agora 1.º ciclo), vêm sendo eliminadas todas as cadeiras (unidades curriculares) cujo valor acrescentado se traduz precisamente no incentivo do espírito crítico e da capacidade de reflexão. Essas cadeiras não representam nenhuma mais valia o sistema, pois não contribuem para o aumento da sua “performance” económica, nem acrescentam valor mercantil imediato. Deste modo, por exemplo, no caso dos cursos de economia, foram eliminadas as Histórias, as Sociologias, a Economia Política. Por outro lado, reforçaram-se as cadeiras de contabilidade, as cadeiras de gestão financeira, as auditorias. Afinal, para que é que um licenciado em economia precisa de conhecer as propostas dos economistas heterodoxos ou a ética kantiana? O mercado procura por tecnocratas que saibam preencher balancetes e calcular rácios de solvabilidade e a universidade deve fornecer a matéria-prima exigida pelo mercado.

Cada vez mais se espera que os estudantes memorizem acriticamente factos, teoremas e datas, que deverão ser depois despejados num qualquer exame. O conformismo e a aceitação pronta do saber reproduzido e veiculado são tidos como norma a emular por alunos exemplares. O debate e o criticismo não existem ou são próprios de agentes subversivos, loucos sediciosos, isolados no seio da universidade e extirpados das estruturas de poder das academias.

Os alunos, futuros operadores diligentes e subservientes, cada vez mais autistas e incapazes de questionar e contestar, de olhar ao redor, preocupam-se apenas com a questão “onde vou aplicar isto?”, ou seja, “onde poderei ser útil”?

sábado, 20 de dezembro de 2008

Diário de um inútil


Vivemos na era da exaltação do "fazer" em detrimento do "ser".


Nos dias que correm as universidades estão reduzidas a fábricas de produção em massa de cumpridores de tarefas. Todos os anos fornadas de jovens iludidos e pateticamente pretensiosos são despejados no mercado de trabalho. Todos eles são fruto da produção massificada e estandardizada, como parafusos indistinguíveis. A sua função será impulsionar e optimizar a performance do sistema. Para isso não precisam de pensamento crítico, nem de reflexão, nem de filosofia, nem de literatura, nem de arte, nem de contestação. São formados para executar. E executar é a sua missão. E devem fazê-lo eficientemente. Eficiência, performance, produtividade, flexibilidade, competitividade, pro-actividade, “soft skills” são o léxico sagrado do sistema, e todos os jovens o devem dominar e aplicar. Se algo não tem aplicação prática imediata, ou se não acrescenta valor mercantil, deve ser abatido, pois é considerado inútil. Lembro-me de ouvir o Sr. João Salgueiro, essa figura tenebrosa, defender, em certo programa televisivo, que cursos universitários que invariavelmente conduzam ao desemprego, como as Humanidades, deviam deixar de ser financiados, pois tal constitui um desperdício de recursos. O completo desenvolvimento intelectual do Homem, a autonomia do indivíduo, a promoção do espírito crítico e da criatividade são um desperdício de recursos. As universidades devem deste modo resignar-se a cumprir a parte que lhes cabe dentro do sistema, que é a de fornecer, de acordo com as leis de mercado da oferta e da procura, operadores preparados para assumirem os seus postos. Tecnocratas que saibam executar sem pensar.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Escravidão do espírito ou da imaginação


Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta escravidão do espírito ou da imaginação.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

"O mundo não é belo; e isso, de uma certa forma, trás um pouco de beleza"


Hoje vou despir a minha proverbial toga de pseudo-intelectual-elitista e vou discorrer acerca de um segmento de cultura popular: o anime.

Para quem não sabe, Anime é o nome dado à animação japonesa (à banda desenhada chama-se manga). E nem só de séries sanguinolentas, com personagens primárias e de aparência grotesca (o bom, detentor de todas as qualidades, incluindo a beleza física; o vilão, mostrengo abominável, representante de tudo o que existe de mau e execrável no mundo) e com enredos pueris e superficiais, se constitui o anime (na verdade, a descrição que acabei de fazer assenta sobretudo a um género específico de anime destinado a crianças e adolescentes do sexo masculino, o shonen, do qual Dragon Ball é o sumo representante entre nós). Na verdade existem séries maravilhosamente belas, com enredos bem construídos e personagens complexas e tocantes.

Vou falar-vos brevemente acerca de uma dessas séries: Kino no Tabi - The Beautiful World. Embora não muito conhecida no ocidente, esta série é, na minha opinião (e não só), absolutamente genial.

Em Kino no Tabi o mundo está dividido numa miríade de pequenos países, cidades-estado autárcicas e desconexas. Cada país possui características próprias, peculiaridades extraordinárias e “realidades surreais”. As idiossincrasias próprias de cada país constituem-se como a força motriz da série. Mas já lá irei.

A história segue as aventuras de Kino, jovem que viaja ao redor do mundo com a sua moto "Hermes" para conhecer os diferentes países e as suas culturas e, neste processo, obter respostas para dúvidas que existem na sua mente a respeito do mundo e das pessoas que o habitam. Nas suas viagens Kino obedece escrupulosamente a uma regra: ficar no máximo apenas 3 dias em cada país. Assim, pode conhecer os locais por onde viaja sem se afeiçoar demasiado a algum deles. Só houve um país onde Kino quis ficar por mais de três dias. Não vos vou obviamente dizer qual, nem porquê.
Outra regra que caracteriza a conduta de Kino nas suas viagens: ela não intervém nos acontecimentos que presencia nos diferentes países. Assume uma posição neutral de espectadora. Limita-se a observar e a seguir o seu caminho. Quando lhe perguntam porque não impediu determinado homicídio ela responde simplesmente: “porque não sou Deus”.
Kino é uma jovem melancólica e com um olhar triste e distante. Há aspectos do seu passado que são desconhecidos. Treina impreterivelmente todas as noites com o seu revólver, “persuader”. Na verdade, apesar de jovem, ela é uma exímia atiradora.

Mas vamos ao principal trunfo da série, os países visitados por Kino. Se há algo que este anime desperta nas nossas mentes é reflexão filosófica: conceitos e teorias como existencialismo, o dilema da existência, fanatismo religioso, a filosofia do absurdo de Camus, o mito de Sísifo, e até uma metáfora ao período do Terror jacobino da Revolução Francesa estão aqui presentes. Tudo isto com uma simplicidade e beleza extraordinárias e sem quaisquer tiques de pretensiosismo pseudo-intelectual. Como ficar indiferente, por exemplo, perante um país onde as pessoas passam anos a fio a construir torres gigantescas apenas porque é algo que todo mundo sempre fez, sem saberem a razão pela qual realizam esta actividade? Quando uma torre se desmorona é erguida novamente. As pessoas não se questionam, simplesmente executam. As suas vidas estão desprovidas de qualquer sentido. Ou então o que dizer do país onde todos os cidadãos beberam um elixir que, permitindo ler os pensamentos dos outros, levou não à união, mas à atomização e à dissolução social? Ou ainda o país em que as crianças, chegando aos doze anos, são operadas, com o intuito de se expurgar a “infantilidade” dos seus cérebros, tornando-as cidadãos competentes, mas robotizados, que vivem meramente para trabalharem com um sorriso artificial? Não vos direi mais para não estragar a experiência fantástica que é assistir a esta série. Só vos digo, simplesmente vejam .

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

No sótão e na caverna


De algum tempo a esta parte tenho sido confrontado com um pesadelo interior, uma sombra que emerge e se difunde, que se expande, um cancro atroz, um parasita insidioso, uma dúvida, ou melhor, um medo, sim, um medo, o medo. Cruel, destruidor, virulento, dilacerante pungente. O meu cérebro está atrofiado, embotado. Examino-me atentamente e, não menos que aterrorizado, descubro estar agora reduzido à imbecilidade, à mediocridade. Sou, neste momento, um idiota, um idiota balbuciante e titubeante.

Narciso à beira do lago


Os dois leitores deste blogue poderão perguntar-se qual a razão que leva um rapaz cada vez mais idiota levar a cabo a curiosa empresa que é escrever um blogue. Dir-lhes-ei que a razão é evidente se pensarmos no que é a blogosfera e no motivo que alimenta a sua existência. Escrevemos em blogues pela mesma razão pela qual gostamos de nos olhar ao espelho. Escrevemos porque, tal como gostamos de nos deleitar com o nosso reflexo, qual Narciso à beira do lago, gostamos de admirar a nossa própria inteligência. É uma forma de narcisismo, de onanismo e de masturbação intelectual. Ansiamos por comentários, elogios, espanto, até por críticas. Queremos ser ouvidos, lidos, notados. É a aspiração dos insignificantes.